Samba-Jazz | Por Murilo C.Martins

          Ao final dos anos 50, a atenção do mundo estava voltada para o nascente movimento musical que surgia em território brasileiro, mais precisamente no Rio de Janeiro. A bossa-nova de Tom, Vinicius e João Gilberto vinha trazendo novos ares as manifestações culturais do país e levava o nome das terras cariocas ao conhecimento de consagrados músicos e musicistas ao redor do mundo.

          O minimalismo de balanço suave e estrutura jazzística, embalado pelas percepções de vida, amor e relações da elite branca carioca, encantaram nomes como Ella Fitzgerald, Frank Sinatra, Sarah Vaughan e o emblemático Stan Getz, que com seu fascínio encabeçou um dos mais importantes registros da bossa-nova ao lado de João Gilberto.

          Da mesma forma que os standards dos grandes nomes do jazz americano chegaram aos músicos brasileiros, os artistas mais instigados e revolucionários também tiveram seus registros circulando pelos ouvidos dos jovens artistas nacionais da década de 60. O free jazz de Coltrane, o bebop de Charlie “Bird” Parker e Dizzy Gillespie e a inventividade dos jovens jazzistas, que vinham cansados da estagnação musical da cena americana, influenciaram grandes instrumentistas daqui que se viam igualmente cansados com a estrutura “joãogilbertiana” da bossa-nova que seguia mais do mesmo, alicerçada na ideia de “um banquinho, um violão”.

          Os instrumentistas nacionais queriam experimentar, improvisar, deixar fluir todo seu virtuosismo e técnica na hora de reproduzir a música, necessidades essas que a cena atual fervilhante da cidade até então não iria permitir. Era hora de reinventar a musicalidade. Tendo o Rio como palco pra estreia da nova cara da música instrumental brasileira, surge o movimento intitulado “samba-jazz”. A ideia agora não era mais a sutileza e sentimentalismo de uma canção serena, mas sim a explosão de instrumentos em sessions desconcertantes de grandes músicos, a fim de soltar tudo o que podiam em seus instrumentos.

          Nomes como o de Miele e Boscoli foram fundamentais para a ascensão do movimento, investindo em jovens artistas e arrumando locais para que tocassem, locais esses que mais tarde viriam a se tornar os emblemáticos “Boite Baccarat” e “Bottles Bar” no Beco das Garrafas, uma travessa localizada no centro Rio de Janeiro. As noites do Beco eram tão absurdas e moviam tantos jovens para os bares que o nome “das Garrafas” foi anexado devido as garrafas que voavam de cima dos prédios, arremessadas dos apartamentos de pessoas cansadas do que o novo acontecimento da música estava movendo.

          As ruas da travessa viviam lotadas para apreciação de shows em que, num mesmo palco, eram possível assistir nomes como: Dom Um Romão, Dom Salvador, Elis Regina, Leny Andrade, Pery Ribeiro, João Donato, J. T. Meirelles e muitos outros. Junto a artistas ainda tão jovens, mesmo já deixando clara a importância que teriam para a música brasileira, surgiram também os trios responsáveis pela experimentação instrumental que seria o principal aspecto do samba-jazz. Com um contrabaixo, uma bateria e um piano, grupos como Jongo Trio, Zimbo Trio, Bossa 3, Som Três, Milton Banana Trio, Dom Salvador Trio e Tema 3D, apenas para citar alguns, desenvolviam jams intermináveis de uma potência jazzística nunca antes vista nesse país.

          Como descrito por João Donato, artista que transitou por ambos movimentos no Rio de Janeiro: “Nós, que passamos muito tempo acompanhando músicos e cantores, não tínhamos muita liberdade para improvisar. E o samba improvisado acaba sendo uma forma de desafogo, de escapar da burocracia musical”. O movimento também serviu para que certos artistas estrondosos demonstrassem seu talento e se tornassem expoentes da música instrumental brasileira, bem como Edison Machado, tido até hoje como um dos grandes bateristas brasileiros de todos os tempos, dono do registro É Samba Novo (1960), o mais importante e que mais sintetiza a capacidade do samba-jazz.

Com a força destruidora do funk de James Brown que veio surgindo na década de 70, alguns destes nomes do movimento começaram a pender para a vertente e construir novas propostas, deixando o samba-jazz aos poucos cair no esquecimento. Hoje é possível ver o estilo ser resgatado por grandes DJs do cenário nacional e mundial nas pistas de todo o mundo, simbolizando bem o quanto o movimento é atemporal e segue sendo influente para os apaixonados pela pesquisa musical.

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Letreiros dos bares “Boite Baccara” e “Bottle’s Bar” na Rua Duvivier ou Beco das Garrafas

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Murilo C. Martins, colaborador do Playlist of Death

 

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